Calcário e durezaO que é o calcário da água e porque incrusta nas tubagens
Toda a gente o vê no resguardo do duche e na resistência do termoacumulador, mas poucos sabem o que é ao certo nem porque adere. Este guia explica o mecanismo completo: de onde vem o calcário, que reação o faz precipitar, quanto custa a uma instalação e que famílias de tratamento existem hoje.

O calcário da água é carbonato de cálcio dissolvido: cálcio e magnésio que a água da chuva arranca às rochas calcárias por onde se infiltra antes de chegar à rede. Enquanto a água está fria e em movimento, esses minerais viajam dissolvidos e são invisíveis. O problema aparece quando a água aquece ou fica parada: nessa altura o carbonato perde solubilidade, precipita sob a forma de cristais e esses cristais agarram-se à primeira superfície que encontram. Isso é uma incrustação.
Convém dizê-lo já, porque quase tudo o que se conta sobre o calcário assenta num mal-entendido: o calcário não é sujidade e não vem de fora. É um mineral que já estava na água desde a origem. O que muda não é a quantidade, mas a forma. Perceber essa mudança de forma é perceber porque é que umas soluções funcionam e outras não.
O que é exatamente o calcário da água
A água da chuva é praticamente pura, mas carregada de dióxido de carbono. Ao atravessar o subsolo transforma-se num ácido muito fraco que dissolve a rocha calcária. O resultado é uma água rica em bicarbonato de cálcio e bicarbonato de magnésio, dois sais perfeitamente estáveis enquanto se mantiverem as condições em que se formaram.
À soma de cálcio e magnésio dissolvidos chama-se dureza da água. Na Península Ibérica mede-se habitualmente em graus franceses (°f), em que 1 °f equivale a 10 miligramas de carbonato de cálcio por litro. Uma água de 35 °f transporta 350 mg de carbonato por cada litro, ou seja, cerca de 350 gramas por metro cúbico. Uma habitação de quatro pessoas que consuma 120 m³ por ano faz passar pelas suas tubagens, com essa dureza, cerca de 42 quilos de carbonato de cálcio.
Porque incrusta: a reação que ocorre dentro da sua caldeira
O bicarbonato de cálcio é solúvel. O carbonato de cálcio não é. Todo o fenómeno da incrustação consiste na passagem do primeiro ao segundo, e essa passagem acontece quando a água perde o dióxido de carbono que mantinha o equilíbrio. Há três formas de o perder:
- Por calor. O carbonato de cálcio tem solubilidade inversa: ao contrário do açúcar, dissolve-se pior quanto mais quente estiver a água. Aquecer é a via mais rápida para o fazer precipitar.
- Por agitação ou queda de pressão. Uma mudança brusca de secção, uma curva apertada, a saída de uma torneira ou o orifício de um difusor libertam CO₂ e desequilibram a reação.
- Por evaporação. Ao secar uma gota fica todo o mineral que transportava. É a marca branca do resguardo, da torneira e da loiça.
Os cristais que se formam nesse momento não são neutros. O carbonato de cálcio pode cristalizar em várias formas e a que domina nas instalações domésticas é a calcite: cristais romboédricos, densos, com forte tendência a aderir entre si e a qualquer parede. Essa afinidade pela superfície é exatamente o que transforma um mineral numa crosta.
O papel da temperatura
Abaixo de 40 °C a precipitação é lenta e em grande parte reversível. Entre 40 e 60 °C acelera. Acima de 60 °C dispara: a superfície de uma resistência elétrica ou a frente de chama de um permutador de placas trabalham localmente muito acima da temperatura de referência, e aí o calcário precipita de forma quase instantânea.
Isto explica um paradoxo que desconcerta muita gente: a regulamentação sanitária obriga a manter a água quente sanitária a 60 °C para prevenir a legionela, e essa mesma temperatura é a que mais favorece a incrustação. Não se pode abdicar de nenhuma das duas coisas, por isso o tratamento tem de atuar sobre o calcário e não sobre a temperatura.
Porque o termoacumulador e o permutador são sempre os primeiros
A incrustação concentra-se onde coincidem três condições: temperatura alta, superfície rugosa e caudal lento. Um acumulador de água quente reúne-as todas. Um permutador de placas acrescenta uma quarta, a secção de passagem estreita, e por isso perde rendimento antes de qualquer outro componente da instalação.
- Resistência do termoacumulador elétrico: a crosta funciona como isolante e obriga a resistência a trabalhar mais quente para entregar os mesmos graus. Envelhece antes do tempo e acaba por fundir.
- Permutador da caldeira mural: basta uma camada fina para que o caudal de água quente desça de forma percetível e o queimador module pior.
- Torneiras, arejadores e chuveiros: os orifícios de menor diâmetro fecham primeiro. O chuveiro que distribui mal a água está quase sempre calcificado, não avariado.
- Máquina de lavar roupa e loiça: o calcário deposita-se na resistência e na bomba, e obriga a aumentar a dose de detergente para obter o mesmo resultado.
- Tubagens de água quente: a secção útil reduz-se ano após ano. A perda de caudal é tão gradual que raramente é atribuída ao calcário.
Quanto custa o calcário a uma instalação
O carbonato de cálcio é um excelente isolante térmico, e é precisamente esse o problema. Quando se deposita sobre a superfície que transmite calor, obriga o gerador a queimar ou consumir mais para entregar a mesma temperatura. O número mais repetido no setor é cerca de 10 % de consumo adicional por cada milímetro de incrustação num permutador. É uma estimativa, não uma lei: depende da geometria do equipamento e da natureza do depósito. Mas a ordem de grandeza é geralmente aceite e explica porque é que uma caldeira com cinco anos sem tratamento gasta claramente mais do que no dia em que foi instalada.
| Espessura de calcário | Efeito sobre a permuta | Sinal percetível |
|---|---|---|
| 0,5 mm | Perda de rendimento ainda discreta | Nada evidente |
| 1 mm | Cerca de 10 % mais de consumo | A água quente demora mais a chegar |
| 3 mm | Perda de rendimento significativa e caudal reduzido | Ruído de fervura, caudal irregular |
| 5 mm ou mais | O gerador trabalha permanentemente forçado | Avarias repetidas, cortes de água quente |
Valores indicativos de referência setorial. O impacto real depende do equipamento, da dureza e do regime de utilização.
Ao custo energético soma-se o custo de substituição. Um termoacumulador que devia durar quinze anos é substituído aos oito. Um permutador é desmontado e limpo com ácido, o que lhe encurta a vida. Uma bomba trabalha contra uma perda de carga que não estava prevista. E há um terceiro custo, mais silencioso: o do produto químico e o da manutenção recorrente que se aceita como inevitável.
Calcite e aragonite: porque a forma do cristal muda tudo
O carbonato de cálcio pode cristalizar em várias estruturas diferentes com exatamente a mesma fórmula química. As duas que importam aqui são a calcite e a aragonite.
| Calcite | Aragonite | |
|---|---|---|
| Estrutura | Romboédrica, compacta | Acicular, em agulhas finas |
| Comportamento | Adere às paredes e cresce por camadas | Permanece em suspensão, não se agarra |
| Consequência | Crosta dura, difícil de remover | Pó fino que a água arrasta |
| Onde aparece | Água quente em repouso, superfícies rugosas | Água agitada, cristalização forçada |
Aqui está a chave de todo o tratamento físico da água: não é preciso retirar o cálcio da água para evitar a incrustação, basta que cristalize na forma que não adere. O mineral continua lá, a água conserva a sua composição e o seu sabor, e mesmo assim deixa de gerar crosta. É uma abordagem radicalmente diferente da de retirar o cálcio, que é o que faz um descalcificador de sal.
As três famílias de tratamento e o que faz cada uma
Quem procura como eliminar o calcário depara-se com propostas que parecem equivalentes e não o são de todo. Na realidade só existem três formas de atuar sobre o carbonato de cálcio, e convém saber qual é qual antes de comparar preços.
Retirar o cálcio da água
É o que faz o descalcificador de resinas de permuta iónica: substitui o cálcio e o magnésio por sódio. A água sai efetivamente macia, mas em troca consome sal de forma permanente, descarrega salmoura no esgoto em cada regeneração e altera a composição da água.
Impedir que o cálcio adira
É o tratamento físico: o cálcio continua na água, mas é obrigado a cristalizar numa forma não incrustante. Sem consumíveis, sem descarga e sem alteração de composição. É o princípio dos equipamentos EF-i.
Dissolver o calcário já depositado
É a limpeza química, com ácidos ou sequestrantes. Atua sobre o que já está incrustado, mas não evita que volte a formar-se: é uma operação de manutenção, não uma solução.
As duas primeiras famílias resolvem o problema pela raiz por caminhos opostos, e a escolha entre ambas depende sobretudo de se querer ou não uma água descalcificada quimicamente. Desenvolvemos essa comparação ponto por ponto em Descalcificador de sal ou tratamento físico.
O calcário que já está incrustado
Uma instalação que leva anos sem tratamento não parte do zero: já tem depósito acumulado. Um tratamento puramente preventivo congela a situação mas não a corrige, e esse pormenor costuma decidir se vale a pena intervir numa instalação antiga.
Os equipamentos EF-i têm também efeito curativo: as ondas de baixa frequência propagam-se pela coluna de água para além do dispositivo e vão fragmentando as camadas já existentes, que o caudal arrasta progressivamente. Não é instantâneo. Numa instalação muito incrustada o processo conta-se em semanas ou meses, e é gradual por conceção: os depósitos soltam-se em partículas finas e não em placas capazes de obstruir um componente a jusante.
Atenção: o calcário não é o problema de um circuito fechado
Tudo o que fica dito refere-se ao circuito aberto: a canalização que renova água de rede de forma contínua. Num circuito fechado de aquecimento ou climatização a água não se renova, pelo que o cálcio que continha precipitou uma vez e ficou por ali. Aí o inimigo é outro: as lamas, a ferrugem e o biofilme gerados pela corrosão interna.
Confundir os dois problemas leva a instalar o equipamento errado. Se a sua dúvida é sobre radiadores frios em baixo, piso radiante irregular ou água escura na purga, o artigo de que precisa é Lamas em circuitos fechados de aquecimento.
Perguntas frequentes sobre o calcário da água
Calcário e sarro são a mesma coisa?
Na linguagem corrente usam-se como sinónimos e, em canalização, referem-se ao mesmo: o depósito branco de carbonato de cálcio que se forma em tubagens, torneiras e resistências. Sarro é o termo mais habitual para o depósito já formado e visível; calcário designa tanto o mineral dissolvido como o depósito.
Ferver a água elimina o calcário?
Ferver a água provoca exatamente o contrário do que as pessoas esperam: o calor faz precipitar o carbonato, que fica no fundo do recipiente. A água servida tem um pouco menos de calcário, mas o mineral não desapareceu, depositou-se. É precisamente o mesmo mecanismo que incrusta um termoacumulador.
Porque há calcário numas casas e noutras não, com a mesma rede?
A dureza depende da origem da água e da geologia do terreno, e pode variar bastante entre concelhos abastecidos por captações diferentes. Dentro da mesma habitação influenciam ainda a temperatura de referência da água quente, a antiguidade da instalação e o material das tubagens.
A partir de que dureza convém tratar a água?
Como referência prática, abaixo de 15 °f a água considera-se macia e o risco de incrustação é baixo. Entre 15 e 30 °f a incrustação é apreciável a médio prazo. Acima de 30 °f o tratamento justifica-se quase sempre, e acima de 40 °f é difícil manter uma instalação de água quente sem ele.
Um tratamento físico reduz a dureza da água?
Não, e é importante perceber isso: a dureza medida numa análise continua a ser a mesma porque o cálcio não foi retirado da água. O que muda é a sua capacidade de incrustar. Se o objetivo é um número baixo na análise, o tratamento físico não o dará. Se o objetivo é não haver crosta na instalação, dá.
O calcário danifica as tubagens de plástico como as de cobre?
O depósito forma-se sobre qualquer material, embora as superfícies rugosas o favoreçam mais do que as lisas. Numa tubagem de plástico a incrustação agarra-se um pouco pior, mas acumula-se igualmente nos pontos quentes e nas mudanças de secção. O material da tubagem atrasa o fenómeno; não o evita.
Sobre este artigo
Redigido pela equipa técnica da DRAGEAU Ibérica com base nas fichas técnicas da gama, nos certificados dos produtos e na experiência adquirida em instalações em Espanha, Portugal e Andorra. Os intervalos e as estimativas são assinalados como tais no texto.
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